Durante mais de um século, uma noiva minhota casou de preto e levou ao peito o ouro da família.
O vestido branco chegou depois, por influência estrangeira. Até aí, e ainda durante muito tempo, o dia do casamento tinha outra gramática: um traje escuro, bordado a lantejoulas, e sobre ele uma composição de peças de ouro montada com regras próprias, que qualquer pessoa da região sabia ler.
O traje de noiva distinguia-se por dois pormenores
Nos cortejos de Viana do Castelo continuam a ver-se os trajes ricos: o da lavradeira abastada, o da mordoma, o da noiva e o da morgada. Entre estes, os trajes negros de mordoma e de noiva são praticamente idênticos. A diferença está em duas coisas apenas. A mordoma leva um lenço colorido na cabeça e um palmito na mão. A noiva leva um véu e um ramo de laranjeira. É um detalhe mínimo, e diz tudo sobre a economia destes trajes: a mesma peça servia vários momentos maiores da vida de uma mulher, e bastava trocar dois elementos para mudar o seu significado.
O ouro compunha-se ao peito como uma frase
A quantidade e o tipo de peças sempre foram opcionais, e variavam de mulher para mulher conforme a fortuna e o gosto da casa. Havia, ainda assim, procedimentos que se seguiam. Sobre os trajes de mordoma e de noiva, os adornos organizavam-se numa malha compacta que cobria todo o peito, dos ombros à cintura, disposta com simetria em torno de um eixo central. Nessa composição destacavam-se os relicários, os corações e as cruzes de Malta, e os colares de contas e as libras ouradas ocupavam lugar de primeira linha.
Nas orelhas, os brincos à rainha. São os pendentes mais aparatosos de toda a ourivesaria popular, compostos por três corpos articulados, e em Ponte de Lima chamam-lhes picadinhos. Em Viana conta-se que o nome veio da visita de D. Maria II à cidade, em 1852, embora não exista documento que o comprove. Ficou na tradição oral, o que também é uma forma de verdade.
As joias que falavam de amor
Dentro deste conjunto há peças que pertencem inteiramente ao território do compromisso.
A borboleta, pequena peça com a forma de um coração invertido, usada a rematar um cordão ou um fio de contas, era gravada com motivos diferentes em cada face. Nos modelos mais antigos gravava-se a palavra Amor. Mais tarde, passou a gravar-se Amizade.
Mordoma no desfile de Mordomia, em Viana do Castelo, ourada com conjunto de jóias, com Borboleta ao centro.
O coração, que começou ligado ao amor divino, foi-se abrindo ao amor humano ao longo do século XX. Leia aqui mais sobre o Coração de Viana.
Coração de Viana em Cordão de Ouro, na Ourivesaria Arneiro.
E havia os esmaltes: retratos pintados sobre esmalte, guarnecidos a ouro, usados ao peito ou pendurados num fio. Eram ourivesaria sentimental no sentido literal. Uma mulher usava-o como sinal de compromisso com o noivo, ou em evocação do marido. Nos anos 60 do século XX, muitos rapazes ofereciam um esmalte com a sua fotografia às namoradas antes de embarcarem para a Guerra Colonial, para que elas o levassem ao peito durante a ausência. Algumas ofereciam-lhes, em troca, um anel com a sua própria fotografia em esmalte.

Esmaltes, retiada de obra de Rosa Maria dos Santos Mota, edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2021.
Quando casava uma filha, a casa enchia-se de ouro
O casamento de uma filha marcava-se para lá do traje. No Minho e no Douro Litoral, erguiam-se arcos festeiros à entrada das casas de lavoura e decoravam-se com cordões de ouro, numa demonstração pública da abundância da casa. Havia uma razão de fundo para tanto aparato.
Entre meados do século XIX e meados do século XX, ter ouro valia tanto como ter terra e gado, e mais do que a própria casa onde se vivia. O adágio português resumia a hierarquia: «terra quanta vejas, casa quanta caibas e ouro quanto possas». Aquele ouro era reserva de valor a que se recorria em tempos difíceis, vendendo ou empenhando peças, e era o pecúlio que se legava às gerações seguintes. Todo ele foi produzido, desde o início, em ouro de 19,2 quilates.
O que atravessou até aqui
Grande parte deste ouro saiu do uso diário e passou para os cortejos, para as caixas de família e para a Sala do Ouro do Museu do Traje de Viana do Castelo, hoje o único espaço museológico do país inteiramente dedicado à ourivesaria popular. O que se manteve foi o essencial. Uma família continua a marcar o casamento com uma peça de ouro, continua a escolhê-la com o cuidado de quem sabe que vai ficar, e continua a passá-la adiante. A intenção é a mesma que levava uma noiva a sair de casa com o ouro de três gerações ao peito.
Fonte principal: Rosa Maria dos Santos Mota, «A Ourivesaria Popular Portuguesa em Viana do Castelo», edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo, outubro de 2021.







