Há joias que se usam. E há joias que se herdam, se guardam em caixas de veludo e se voltam a tirar em dias que contam. O Coração de Viana é dessas.
É provavelmente a peça portuguesa mais reconhecível do mundo: está nos trajes das romarias, nos peitos das noivas, nas fotografias antigas de família e, cada vez mais, no dia a dia de quem quer trazer consigo um pedaço da nossa identidade. Mas por trás da forma que todos reconhecemos há uma história técnica, simbólica e geográfica que quase ninguém conhece na íntegra.
Um símbolo sagrado que também é profano
O coração flamejante tem séculos de tradição. Simboliza o calor da fé, a caridade e o amor ao próximo, mas é, em simultâneo, um símbolo profano: o amor ardente (ou em chamas), o afeto puro e a fertilidade.
Essa dupla leitura explica muito da sua força. Órgão vital do corpo e sede da alma, o coração conquistou um lugar único no peito da mulher portuguesa. Foram as lavradeiras minhotas e do Douro Litoral que privilegiaram os corações de filigrana, duplos ou de uma só face, maioritariamente feitos nas oficinas de Gondomar e da Póvoa de Lanhoso.
Anatomia de um coração de filigrana
Olhado de perto, o Coração de Viana não é uma forma única: são três elementos que se leem de cima para baixo.
- A coroa flamejante. O topo estiliza a chama da fé, do amor ardente ou da intensidade do afeto, em geral.
- A flor central. O elemento de charneira, que une o órgão às chamas em filigrana.
- O coração (a base). Distingue-se pela curvatura assimétrica e pela perfeição do rendilhado em filigrana.
É esta última parte que separa uma boa peça de uma peça extraordinária. A palavra filigrana une dois termos latinos, filum (fio) e granum (grão), e descreve uma arte milenar de paciência e precisão: dois finíssimos fios de metal precioso são torcidos, deformados sobre uma estrutura e soldados, criando rendas metálicas de beleza ímpar.
O mito geográfico: a maioria das joias ditas "de Viana" nunca foi produzida em Viana
Este é o dado que costuma surpreender quem entra na loja.
Apesar de o nome de algumas destas peças estar indissociavelmente ligado ao distrito de Viana do Castelo, a esmagadora maioria nunca foi executada no Minho. Historicamente, a produção concentrava-se nas oficinas de Braga, Póvoa de Lanhoso, Porto e Gondomar, sendo depois vendida para o Minho, onde as mulheres locais a adotaram como o elemento mais nobre do seu traje tradicional.
Foi o Alto Minho que valorizou estas peças, comprando-as e exibindo-as nas romarias. Uma região fez; a outra deu-lhes sentido. E a estrada entre as duas fez-se ao ombro dos vendedores ambulantes. Foi assim que o ouro do Norte chegou às várias regiões do país, incluindo Sintra.
Continue a leitura: o guia completo da ourivesaria tradicional portuguesa
O Coração de Viana é apenas uma das joias icónicas da nossa ourivesaria. Há também as Arrecadas "de Viana" ou "bambolinas", as Contas de Viana ou "olho de perdiz", os Brincos à Rainha, os Caramujos, as medalhas de "Lembrança" e as joias "barrocas", cada uma com a sua técnica, o seu significado e o seu tempo.
Reunimos tudo isso, incluindo a explicação da marca de certificação criada em 2018 para a filigrana artesanal, numa página dedicada:
Ourivesaria Tradicional Portuguesa: o guia completo
Veja ao vivo, em Sintra
Após 25 anos de estrada na sua motorizada Florett, Reinaldo Arneiro estabeleceu-se em 1969 no coração da Vila de Sintra. Sem nunca abandonar o contacto direto com os clientes nas feiras tradicionais da Malveira, Cascais e S. Pedro, a loja tornou-se o porto de abrigo onde a tradição aurífera portuguesa é celebrada diariamente.
As joias são memórias materializadas: guardam os valores sociais e estéticos de uma época. No primeiro piso, mesmo por cima da loja, pode ver ao vivo todas as peças aqui referidas e muitas outras, cada uma com a sua própria história.
Arneiro 1969 Praça da República, 21-22, 2710-616 Sintra Segunda a Sábado, 10:00–13:00 | 15:00–19:00 www.arneiro.com







